AMANTES

Chego em ti como um dezembro disfarçado
a espiar a planura da chuva,
em ti busco a proeminência das sombras,
dispo-me destes meus mágicos cansaços
ausento-me para ser somente eu
quem se refaz aos teus meigos braços,
deito-me ao pé dos teus abismos,
os fémures são estilhaços
dobrando-se de dor de longínquas eras,
o tutano a morder as nossas arfadas línguas e a espreitar-nos
sacode pelos ventos os hálitos dos beijos
em sibilantes enxutos de lanhos nas carnes,
somos nós quem espantamos as aves
pousando-nos nas cabeças,
e tornam-se aves quando bebem
toda a nossa água cuja fonte são teus olhos,
os dedos se cruzam em rebelião dos tremores das tuas mãos,
recém tecituras de cotovelos apoiados
aos meus, em debandadas são as nossas almas
regresso para mesma casa de sempre,
esta tua de abrigo maternal,
colo faz-se de palmeira e estira-se de bruços
o chão são os teus imensuráveis lábios
é onde refaço-me em poema e tu em prosa,
extinguimos juntos nesta morte de mil prazeres,
enquanto o sol rasga o diáfano dia,
estamos outra vez, além de amantes somos muito mais amigos e irmãos.

Roberto de Sotela

Publicado por Roberto de Sotela

amo literatura

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora