Vestimo-nos de sombras pelo raiar da madrugada,
lapsos de mãos espreitando os cílios da tua face,
e polo corpo a fazer viagem em modéstios sabores
malmequeres ao fresco hálito dos lábios,
dissimulados cansaços na ferida entre as tuas traves,
mas a agonia do desejo a cantarolar mais alto no coração,
são retumbantes acenos de olhares
a varrer-nos por dentro os quilates da amargura intangível,
súbito ao primeiro e último suspiro profundo
quando inclinei o meu pássaro na tua moita fresca,
milhares de capilares a rasgaram-se de ira e ânsia,
como se eu fosse um madraço com fins de depravação
em nossa dança de dzimamissana, os ossos renegando a nossa fome
tomaste em um só trago todo o pore da minha água,
encharcados foram os nossos corpos
e mutilados foram ainda os nossos pés,
quando vimos, já era tarde, estávamos outra vez submersos numa paixão criminosa.
Roberto de Sotela
